BRASIL

Janot revela conversa com Temer e Alves: "Queriam que eu praticasse crime"

30 Set de 2019 do YacoNews
Do UOL

O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot disse que, em uma conversa ocorrida em março de 2016, Michel Temer - na época era vice-presidente do Brasil - pediu para ele "parar" uma investigação contra Eduardo Cunha — até então presidente da Câmara. 

O encontro aconteceu no Palácio do Jaburu após convite de Temer e reuniu também Henrique Eduardo Alves - que era ministro do Turismo do país - e José Eduardo Cardozo - que ocupava o cargo de ministro da Justiça.

Em reportagem divulgada pela revista Veja, Janot detalhou como foi o pedido para encerrar as investigações contra Cunha, que foi preso meses depois. 

"Ele e o Henrique Alves abriram a conversa dizendo assim: 'Estamos aqui para conversar não com o procurador-geral, mas com o patriota'. Aí, o Henrique Alves disse: 'Queremos chamar o senhor para não permitir que o Brasil entre nessa situação de risco. Esse cara [Eduardo Cunha] é louco, o senhor tem que parar essa investigação'. Neste momento, o Zé Eduardo [Cardozo] entrou".

Janot continuou a dar detalhes do encontro e disse ter mostrado perplexidade com o pedido feito a ele. "Aí, eu parei de falar com o Henrique Alves e falei com o Temer. 'Presidente, esse senhor não é da nossa área, mas o senhor é. O senhor está entendendo a gravidade da proposta que ele está me fazendo?'. E ele disse: 'Estou, sim, mas o senhor não está entendendo, ele não está falando com o procurador-geral, mas com o cidadão patriota'. 

"Eles queriam que eu praticasse um crime, o de prevaricação. Chutei o balde e falei alguns palavrões indizíveis antes de ir embora", completou Janot.

Aécio me convidou para ser vice em 2018, diz Janot

 Na mesma entrevista ao veículo, Janot afirmou que Aécio Neves, então senador, investigado por suspeita de recebimento de propina, outra figura importante no cenário político da época, o convidou para ser vice-presidente de uma chapa na eleição de 2018.

"Certo dia, em 2017, ele sentiu que o clima estava aquecendo com as investigações sobre a Odebrecht e me convidou para ser ministro da Justiça quando ele fosse eleito presidente da República. Eu, claro, declinei. Dias depois, ele voltou e me fez outra proposta: 'Quero pedir desculpa. Acho que o convite não estava à sua altura. Eu acho que você podia ser o meu vice-­presidente. Você escolhe qualquer partido da base, vai ser filiado por ele e vai ser o meu vice-presidente. Isso vai ser um fato mundial. O vice-presidente chama embaixadores, representantes de Estado e vai cozinhar para essas pessoas. E eu sei que você gosta de cozinhar'. É óbvio que era uma tentativa de cooptação", disse o ex-procurador-geral. 

Em nota Aécio, hoje deputado federal, afirmou que jamais convidou Janot "para coisa alguma" e que as declarações do ex-procurador-geral da República "são estarrecedoras".

"Fui, na verdade, um alvo preferencial dos desatinos desse senhor. Espero que seu livro tenha reservado espaço para tratar das ilegalidades cometidas pelo seu braço direito Marcello Miller, aquele que era dublê de procurador e funcionário de Joesley Batista e da JBS. Pelo menos o Brasil conhece um pouco melhor, agora, o perfil daquele a quem o país esteve submetido ao longo de quatro anos. Deu no que deu", afirma Aécio.


Janot citou que o convite para assumir outro cargo também foi cogitado pela base do MDB. 

"Houve uma situação semelhante quando Michel Temer assumiu a Presidência da República. O ex-­ministro Eliseu Padilha me sondou para que eu partisse para um terceiro mandato como procurador-geral da República. Depois fui sondado para ser ministro do Supremo. Na sequência, Gustavo Rocha (ex-­subchefe de Assuntos Jurídicos e ex-­ministro dos Direitos Humanos) me ofereceu o cargo que eu quisesse. Eu brinquei que queria ser embaixador do Brasil na Comunidade de Países de Língua Portuguesa, porque eu moraria em Lisboa, não faria nada e seria como a rainha da Inglaterra. O Gustavo Rocha disse na hora: 'O cargo é seu, é seu'. Mas eu estava brincando."

 Janot afirma quase matou Gilmar Mendes 

Ao "Estado de S.Paulo" o ex-procurador-geral disse que chegou a ir armado a uma sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) com o objetivo de matar o ministro Gilmar Mendes. 

"Não ia ser ameaça, não. Ia ser assassinato mesmo. Ia matar ele [Gilmar Mendes] e depois me suicidar", afirmou Janot, que deixou a Procuradoria há dois anos.

O ex-PGR disse que o caso ocorreu em maio de 2017, quando ele —na época, chefe do Ministério Público Federal— solicitou que o ministro do STF fosse impedido de analisar um habeas corpus de Eike Batista, sob a justificativa de que a mulher do ministro, Guiomar Mendes, era sócia de um escritório de advocacia que representava o empresário em diversos processos.

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